“As pessoas pretas e os desafios do mercado de trabalho” é tema do segundo dia do 38º Enafit

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Por Alamara Barros/Edição: Andrea Bochi

Nesta terça-feira, 22, um dos temas abordados no 38º Enafit foi – “As pessoas pretas e os desafios do mercado de trabalho”. Uma mesa de debates formada por Auditores-Fiscais do Trabalho e outras autoridades especialistas no assunto, abordou discussões relevantes sobre o tema.

Uma das grandes consequências do passado de escravidão é a desigualdade racial no mercado de trabalho. Apesar dos avanços da política de cotas universitárias, por exemplo, ainda é muito comum se deparar com um déficit de pessoas pretas em posições de alta liderança.

Para o Auditor-Fiscal do Trabalho Valdiney Arruda esse ainda é um dos maiores desafios para a Auditoria-Fiscal do Trabalho e que ações de combate ao racismo já vêm sendo desenvolvidas pela instituição, uma vez que o auditor é o agente que garante o trabalho digno independente de raça ou cor.

“A Auditoria-Fiscal do Trabalho vem construindo um mecanismo de enfrentamento com o intuito de identificar os postos de trabalho que praticam tal discriminação, com olhar ético e racial. Esse tipo de prática geralmente ocorre no trabalho escravo doméstico onde são mais comuns as mulheres negras, também nas relações do trabalho formal que impedem que pessoas negras assumam cargos importantes, entre outras situações que nos deparamos e combatemos no nosso cotidiano”, completou.

Um estudo desenvolvido pela consultoria IDados, mostra que pessoas pretas enfrentam mais dificuldades para ingressar na profissão do curso de ensino superior. Dessa forma, acabam exercendo ocupações de qualificação inferior ou até mesmo trabalhos informais que não trazem nenhuma segurança ou estabilidade social.

A socióloga e mestre em Educação, Culturas e Identidades, Emanuele Cristina, falou sobre a realidade da comunidade negra de Recife e o enfrentamento contra o racismo estrutural fortemente instalado no Brasil. “Não tem como a gente ignorar que ainda hoje o racismo estrutura de fato todas as relações, inclusive as relações de trabalho, sendo este público, limitado de um cargo ou posição de destaque na área profissional. Esse evento com os Auditores-Fiscais do Trabalho é de suma importância para apresentarmos desafios reais e relevantes enfrentados pelas pessoas pretas, uma vez que esses servidores públicos têm um papel fundamental de servir, fiscalizar e reduzir essa desigualdade social e racial no país”, completou.

Segundo Ana Georgina Dias, supervisora técnica do Escritório Regional do Departamento Intersindical de Estudos, Estatísticas e Estudos Socioeconômicos na Bahia (DIEESE), a diferença na taxa de participação entre pessoas pretas e não pretas no mercado de trabalho é bem relevante. De acordo com dados apresentados por ela durante o debate, dos 98,3 milhões de ocupados 56,3 milhões são negros e desse total 47,1% de trabalhadores desprotegidos são negros e apenas 34,7% são brancos.

“Sobre qualquer ponto de vista que a gente observe os indicadores do mercado de trabalho, seja informalidade, seja desocupação, subocupação e desalento, nós sempre percebemos uma preponderância da população negra nesses indicadores. E apesar de sermos a maioria em termos de número populacional, é desproporcional a participação da população negra nesses indicadores que demonstram mais precariedade. Infelizmente uma luta que já se arrasta por décadas para mudar esse cenário”, disse Ana Georgina.

A taxa de desemprego mais elevada em relação ao resto da população e rendimentos menores também fazem parte dos desafios enfrentados pela população negra no país. Segundo dados da DIEESE, o rendimento médio mensal para mulheres negras é de R$ 1.715 enquanto para mulheres não negras essa renda sobe para R$ 2.774. Já no público masculino o rendimento médio para o homem negro é de R$ 2.142 contra R$3.708 para o homem não negro.

Também participou da mesa de debate, a Auditora-Fiscal e Doutora em Políticas Sociais e Cidanania, Roseniura Santos. Na ocasião, Roseniura falou que como o mercado de trabalho é um reflexo das relações sociais, a questão racial também está presente no mercado.

“Os dados do Ministério do Trabalho revelam a desigualdade de condições de vida dos trabalhadores e especialmente da população negra. Então, é fundamental essa discussão para o que o Auditor-Fiscal tome consciência maior da importância da sua atuação voltada especialmente à população negra, para que o Brasil possa pelo menos resgatar dentro do mercado de trabalho, parte da dívida histórica com os negros”, finalizou.

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